Por Beth Néspoli 

 

Já existe uma mística em torno dos irmãos Guimarães, os diretores Fernando e Adriano Guimarães, de Brasília. Eles são ‘os caras’ que sabem encenar as peças de Beckett. Estão para o Distrito Federal como Rubens Rusche para São Paulo, diretor que por sinal está indicado para o Prêmio Shell, cuja festa de premiação será hoje à noite, por Crepúsculo – 3 Peças Curtas de Samuel Beckett, espetáculo que tem ainda indicação de ator para Antonio Galleão e iluminação, para Wagner Freire. Assim como um Beckett de Rusche sempre vale ser visto, o mesmo pode ser dito para as encenações desse autor irlandês criadas pelos irmãos Guimarães.

Desde fevereiro, os Guimarães mantêm em cartaz no Espaço Cultural Oi Futuro, no Rio, uma programação intitulada Resta Pouco a Dizer, que reúne oito peças curtas de Beckett e cinco performances, criadas por eles, que dialogam com o universo do dramaturgo irlandês. A programação está dividida em três grandes blocos. Na terça-feira passada, o terceiro foi aberto com uma palestra do diretor e teórico norte-americano Stan Gontarski que falou sobre a obra de Beckett e sobre o trabalho dos Guimarães, que conheceu em 2005, quando ministrou uma conferência na Universidade de Brasília.

Antes da palestra, houve uma apresentação especial de três da peças do programa. Na primeira delas, Ir e Vir, de saída chama atenção a beleza do quadro – três personagens sentadas em cadeiras com vestidos coloridos e chapéus enterrados nos rostos – e a precisão dos tempos nas reações das atrizes Ana Paula Braga, Carol Nemetala e Lanna Guedes que mantêm a tensão em cena. Numa coreografia bem marcada, cada uma delas sai em algum momento. Quando isso ocorre, as outras duas trocam um segredo, ao pé do ouvido, aparentemente sobre a ausente.

Na segunda, Improviso de Ohio – dois personagens, um lê um livro, outro escuta a história de um homem que se isola numa ilha tentando fugir de suas lembranças após uma perda afetiva – contou no Rio com a participação especial de Aderbal Freire-Filho como o leitor. William Ferreira, ator da Cia. Gabinete 3, dirigida pelos Guimarães, era o ouvinte. E na terceira, Balanço, a atriz Vera Holtz, parceira de longa data dos Guimarães, imprimiu incrível densidade ao silêncio. Impossível tirar os olhos da atriz que balançava-se numa cadeira enquanto se ouvia sua voz em off: ela fala sobre o passar dos dias, na verdade sobre o tempo e sobre uma existência que, deduz-se, está chegando ao fim.

Na palestra que se seguiu ao espetáculo, Gontarski chamou atenção para a forma como os Guimarães conseguem ser fiéis ao autor sem com isso criar ‘cópias’ de outras montagens. Chamou atenção, por exemplo, para as ‘agulhas’ nas luvas das personagens de Ir e Vir – assinatura da figurinista Ana Miguel – como um detalhe que amplia sentido. Fernando e Adriano preferem ser mais cautelosos. ‘Eu não gosto da palavra ampliar, porque não se pode ampliar mais ainda o Beckett. Prefiro a palavra dialogar’, diz Fernando. ‘Se a gente fala ampliar, parece que a dramaturgia de Beckett não foi suficiente.’

Seguir ou não as indicações extremamente precisas desse autor é questão que todo criador se coloca ao levar essas peças à cena. ‘É preciso começar por um estudo da obra para entender o que é essencial, os princípios básicos’, diz Fernando. ‘Por exemplo, na peça Eu Não (o espectador só vê uma boca no palco) há uma velocidade certa ao dizer as palavras. Se fizer mais lentamente, o texto vai ganhar muito mais sentido do que talvez o Beckett desejasse. Nesse autor, mudar a forma, altera o conteúdo’, diz Adriano. ‘Tempos e pausas são essenciais’, completa Fernando.

Daí as performances por ele criadas, como Respiração, em que um ator, com um cronômetro, regula o tempo em que dois outros, mergulhados em dois tonéis de água, devem ficar submersos. Quando vêm à tona, um de cada vez, falam um texto sobre a respiração, com cada vez menos tempo para respirar. ‘As performances são nosso espaço de diálogo livre com Beckett’, diz Adriano. ‘É como se jogássemos xadrez com ele; às suas provocações, respondemos com outra provocação.’ No Rio, lotação esgotada por um público jovem atraído pelas performances é sinal evidente de empatia. É torcer para que a programação completa possa vir também a São Paulo.

 

Texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2008.