“Eu não posso continuar, vou continuar”, diz o personagem Malone, de Samuel Beckett, ASA, 2010, trata do constante exercício das mesmas ações. Todo dia. A paisagem, aqui, quase árida, da cidade é o cenário para esse ato sem fim. Um homem corre, atravessando o Eixo Rodoviário, aparentemente atrás de algo. Está atrasado? Atende algum chamado de urgência? Foge? Mas, o ambiente, a luz, certa diluição das formas nos provocam a sensação de estranhamento das imagens oníricas. Acompanha o ato frenético do exausto personagem, um trecho de A morte de Ofélia, de Berlioz, o que dá outro sentido ao ato, uma ideia de irreversível falência, dentro da aparente sensação de paz que a música evoca. A paz do que, de saída, já está perdido.

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