Em ATO SEM PALAVRAS II, 2002-2011, Beckett indica um conjunto de ações a serem desempenhadas por dois homens: A [que é lento, desengonçado e distraído] e B [que é vigoroso, rápido e preciso]. Beckett indica, ainda, que mesmo que B tenha mais coisas para fazer do que A, ambas as ações devem ter a mesma duração. Esta é a primeira ironia: seriam seus temperamentos resultados diretos de suas obrigações? é o homem produto das condições ou as condições é que são produtos do homem? A ação principal de ambos é vestir e tirar uma muda de roupas [terno, no caso da montagem do Coletivo]; além disso, devem cumprir outras micro-ações que nos remetem a rituais cotidianos e nos levam a questionar sua pertinência. Tudo isso sobre uma plataforma “violentamente iluminada” que, branca, rebate a luz e ofusca os atores – em tese, o foco da ação. A dimensão colaborativa da parceria com o iluminador Dalton Camargos durante todo o Projeto Beckett pode ser percebida claramente neste trabalho: junto ao Coletivo, consegue fazer da luz – tão central na dramaturgia beckettiana – um elemento autoral. Adriano e Fernando fogem da representação clownesca ou bufanesca, como se poderia sugerir no texto. Assumem, tanto aqui como em outras de suas montagens beckettianas, um posicionamento sobre o ator segundo o qual as dimensões performativas são mais presentes que a dimensão mimética. Isso se dá de maneira mais clara neste trabalho porque a ausência absoluta de causalidade narrativa não permite que os atores se apóiem em informações históricas ou geográficas sobre os personagens, mas que executem as ações com seu repertório corporal na simplicidade que significa fazê-lo – mesmo que o lento possa se assemelhar ao bobo e o rápido ao esperto na pior tentativa de fixá-los em caricaturas. Não há esse julgamento em Beckett. Chama a atenção a substituição de um aguilhão sobre rodas por uma campainha para determinar a duração das ações e encaminhar os atores cada vez mais para fora do palco [a campainha reincide em diversas performances criadas pelo Coletivo] e também a escolha de um tecido transparente para os sacos, revelando o corpo que repousa enquanto o outro age e jogando com as oposições de revelar/esconder, dentro/fora, sugerir/mostrar.

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