Por Bárbara Heliodora

 

Complementando o espetáculo “Felizes para Sempre”, cuja outra parte é constituída por “Dias Felizes” e “Ir e Vir, às quartas e quintas-feiras, no Teatro III do CCBB, Adriano e Fernando Guimarães apresentam “Jogo”, uma peça de 25 minutos de Samuel Beckett. Para chegar até o espetáculo o público passa por uma série de salas e um logo corredor, nos quais as instalações e performances pretendem incorporar-se ao texto dramático em um único conjunto. Esse objetivo não chega a ser inteiramente realizado, e as duas partes estabelecem contato independente com o expectador.

Ao ter início a apresentação de “Jogo” em si, no entanto, há uma mudança radical nesse contato: o que na virtual totalidade dos casos não passa de curiosidade se transforma em um momento de intensa teatralidade, que deixa sem fôlego só no esforço para não perder nada de um espetáculo brilhantemente executado: três cabeças emergindo de três grandes caixas brancas falam com perfeito domínio técnico em uma velocidade inacreditável: humor, amargura, ironia, suspeitas jorram das três bocas com perfeita dicção e alternâncias rítmicas e tonais milimetricamente desenhadas.

 

Direção precisa dos Irmãos Guimarães

A direção dos dois Guimarães é de perfeita precisão, e a execução vocal de Nadia Carvalho, William Ferreira e Catarina Accioly desfaz os mitos de que ator brasileiro não é bom na técnica. Ninguém vai tentar apresentar Samuel Beckett como um paradigma do teatro de entretenimento, e o conteúdo do texto do “Jogo” é significativo e doloroso mesmo sendo rico de humor; mas o que se pode afirmar, sem dúvida, é que quem for assistir a “Jogo” vai passar por uma rica experiência teatral.

 

Publicado no Jornal O Globo, 8 de outubro de 2000.