CATÁSTROFE, 2002-2011, é uma peça curta sobre a criação artística – e, aparentemente, numa leitura mais ampliada, sobre a criação do homem. O mote é o acontecimento de um ensaio [Beckett novamente metalingüístico]. O público acompanha um homem, que é definido como o Protagonista, de pé sobre um armário que vai sendo moldado pelos comandos do diretor. Adriano e Fernando Guimarães transformam o que era simplesmente um bloco preto nesse armário [retomando o elemento que disparou a relação do Coletivo com Beckett] e colocam uma atriz no papel do diretor. Mesmo que não pareça endereçar essa questão como mote principal, é inegável o discurso de gênero que se estabelece aí. Até porque na dramaturgia original o diretor homem tem uma assistente mulher – é claro a discussão que se propõe acerca das relações de dominação e hegemonia na arte. Basta dizer que o Protagonista é manipulado segundo a vontade criativa do diretor, não fala e não se move se não por força externa. O espetáculo é outro exemplo, junto com Um Pedaço de Monólogo e Rascunho para Teatro II, de como o status do ator em Beckett sofre alterações e junto com ele o conceito de ação, de personagem, de gestualidade, de presença cênica, de protagonismo. É possível até mesmo sugerir que um dos principais exercícios do ator beckettiano seja lidar com a imposição do presente, com o controle das materialidades que necessariamente configuram sua relação com o tempo. Nesse sentido, a atuação é acometida por certo ressecamento de excessos, virtudes e ilustrações declamativas e impostadas que contaminou – como a parte que faltava no quebra-cabeça – as propostas cênicas do Coletivo. 

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