Em JOGO, 2000-2011, a relação da luz como elemento gerador de ação e regulação da cena se inscreve de maneira muito contundente. Bem amarrado dramaturgicamente, o efeito cênico que se provoca é de que “a luz caça a palavra”, mesmo que ela esteja, em termos de estrutura na mesma categoria reguladora que esta última. Em outros termos, a luz tem hora para entrar e sair, mas sua execução cênica lhe confere caráter mais regulador. É o foco de luz que autoriza o ator a falar ou obriga-o a calar-se, quando se apaga. Na montagem do Coletivo, as três cabeças-urnas [transformadas em cabeças-caixas] parecem flutuar no espaço cênico; o recorte da luz é muito preciso. Quando trocam a urna – que guarda restos mortais [seria o corpo os restos mortais de uma cabeça?] – pela caixa – que guarda coisas – Adriano e Fernando retomam o elemento caixa, presente em diversos momentos de sua trajetória artística, e se propõem a ampliar as discussões sobre o que está oculto em Beckett sem necessariamente reduzi-lo a interpretações. Ora, a caixa instaura mais amplamente as oposições entre cheio/vazio, dentro/fora, vitrine/esconderijo, objeto/suporte, tudo/nada. Ainda sobre Jogo, o exercício dos atores nesta montagem é atormentado pela maldição do presente: a entrada e a saída de seu texto dependem da resposta ao estímulo da luz; ator e atrizes devem estar sempre prontos a entrar e a parar mesmo que não venha a deixa de texto: um jogo entre atores-cabeças, palavra e iluminador [assumido como elemento fundamental para a evolução, em seu melhor sentido carnavalesco, do espetáculo].

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