Por Marília Panitz

 

O sujeito regulado por algo externo – som, luz, voz, tempo cronológico... Que lugar terá o acaso? Que lugar terá a escolha? O que determina a obediência a códigos muitas vezes obscuros? Será crença em algum propósito? Será sintoma?

Esse campo de ação (obscuro, sim, mas sem o recurso do suspense, do mistério implícito) é algo que se mantém no trabalho de Adriano e Fernando Guimarães, como herança de anos de diálogo com a obra de Samuel Beckett. Uma orientação poética, talvez. Uma fala que se equilibra entre a resistência à evocação e o desafio à constituição de sentidos possíveis.

Luz sem luz propõe um paradoxo. E propõe o exercício do óbvio. Se ao olho é dado ver e, à luz, a função de tornar visível, entre essas duas operações existem incontáveis gradações, (disso todos nós sabemos)

Como um desdobramento/deslocamento – ou anotações de percurso – das questões presentes na mostra “Dupla Exposição”, realizada em Brasília, no final de 2003, a instalação Luz sem luz é uma caixa preta – como câmara obscura e como guardiã dos segredos do vôo. Caixa preta que se descobre por fachos de luz operada, em um primeiro estágio, pelo observador; pelo acaso (?) em um segundo; e, em um terceiro, pela narrativa circular que os monitores de tv apresentam em uma seqüência na qual assumem o papel de janelas. Uma parábola em torno da única experiência cinematográfica de Beckett, seu Film, estrelado por um Buster Keaton ancião, vestido com um tapa olho... Ver é memória, ver é seqüestro... ver é ver a si mesmo, é perceber-se... Dádiva e maldição... Uma armadilha ou uma ironia?

A questão está posta. O convite é para que se explore a caixa preta. Possibilidade de  aclaramento. Luz sem luz.

 

2004