Por João Cândido Galvão

 

Macbeth  Mauser está instalado na intersecção entre as artes visuais e as artes cênicas, uma região muito rica, mas pouco explorada entre nós, seja por descaso, preconceito ou incompetência. O trabalho de Adriano e Fernando Guimarães e Ricardo Junqueira levanta vários tipos de questões. Numa discussão plástica acadêmica, que divide um quadro entre figura e fundo, um cenário teatral poderia, também em termos acadêmicos, ser o pano de fundo para as figuras dos atores. Macbeth Mauser inverte a situação, questiona o que é cenário, isola-o de sua realidade teatral e, a partir de seu conteúdo plástico, dá a ele a condição de sujeito do objeto artístico.

 A instalação pode ser vista como uma arqueologia da tragédia, usando o elemento expressivo que sobrou depois dela acontecida. Roupas e objetos estão espalhados na terra, como se o local tivesse sido abandonado as pressa, tanto que as velas foram deixadas acesas. Temos a sensação de estarmos presente ao "day after" da situação documentada. Mas, aos poucos, vemos o trabalho do tempo no ferro oxidado, na cera derretida das velas. Começamos a perceber que estamos percorrendo um rico sítio arqueológico e que o ontem pode ser histórico e metafórico, não temporal. A questão que se propõe é: o que é real? Qual será o ontem? O das velas ainda acesas ou o do metal já corroído pela ferrugem, que trabalha lentamente?

Quem teriam sido os habitantes desta Pompéia sem lavas? Que ambição teria impulsionado os donos dos trajes sensuais e bárbaros? Por que teriam deixado para trás seus símbolos de poder? Que desespero os teria levado à apressada fuga? As imagens deterioradas seriam desses incógnitos habitantes ou representariam figuras do seu passado? Todas as respostas são possíveis e essa ambigüidade enriquece o clima da instalação e nos remete a outro tipo de questão, a da relação tempo/espaço, proposta pelo trabalho.

A situação trágica sugerida é compactada no tempo da visita e no espaço da instalação. Os muitos tempos e lugares que levaram àquela situação limite, que apenas vislumbramos, estão reduzidos a um só, diferentes do tempo e do espaço reais, mas que criam uma nova realidade - ou uma irrealidade poética - que compacta o universal, que é pressentido, no particular,  que é vivido  pelos visitantes.

No final da visita, ainda atordoados pelo clima apocalíptico, percebemos o bíblico retorno ao pó, que a todos espera. E nós compreendemos a religiosidade primitiva que emana do local, espaço sagrado, de sacrifício.

Afinal, os deuses das artes são pagãos e sabem como cobrar o seu tributo de sangue.

 

Texto publicado no catálogo: 21ª Bienal Internacional de São Paulo. São Paulo: Marca D’água, 1991.