Por Marília Panitz

 

Depois de abandoná-lo, sua alma encaminhou-se com outras até onde havia dois buracos na terra e dois buracos no céu. Pelo buraco da terra saiam as almas sujas, empoeiradas; pelo outro do céu, almas inteiramente puras. Pareciam chegar de uma longa viagem. Reuniram-se na pradaria como velhas conhecidas, as da terra perguntaram pelo céu e as do céu pela terra.[1]

Platão em O Sonho de Er

 

Um desvio do olhar, um som ao longe, o cheiro que entra pela janela... De repente somos transportados para outro tempo/lugar. Suspensão. Inércia... Atividade intensa.

A memória nos conduz, desloca, jamais para o fato historicamente comprovado. Por isso, ela é mais fiel[2].

Será que a memória pode ser estritamente do outro? Estamos imunes ao que o outro tece sobre si? Não estamos implicados nesse tecido? Que histórias do céu e da terra contamos uns aos outros?

Entre o(s) discurso(s) e o assédio das imagens construímos nossas lembranças articuladas com outras e outras e outras... Espraiam-se. O mundo se oferece ao devir por meio dos urdimentos da memória.

Na sala, penumbra. Ali localizamos os fundos de uma casa de ripas de madeira. Não há janelas. Assim como aquele Buster Keaton do único filme dirigido por Samuel Beckett, aqui a ideia é de fechamento para o externo ou, mais radicalmente, para a invasão das imagens. Não são somente as portas e janelas que se fecham; os espelhos são cobertos, os quadros (nossas rotas de fuga imaginárias) também tem que ser retirados. Toda evocação óptica... Para, ao final, sermos capturados pela própria imagem produzida pelo fechamento das janelas da alma.

Seguimos a caminhada margeando a construção. Somos transportados para o ermo do mundo, um lugar qualquer, em qualquer tempo, um lugar de Manoel (de Barros). A seguir encontramos, frente a frente, duas entradas (dois buracos, na escuridão): uma nos levará para dentro da casa escura; a outra nos apresenta três rotas de fuga. Três tempos em um só tempo, imagens-movimento que produzem sua dança, aquela do cotidiano quase imóvel, quase nada, nada...

Dentro da casa o som, a fala de um alguém/ninguém, contando a minha história? A sua? No singular, com os olhos fechados, ela se faz de uma, muitas versões, como nossa respiração entrecortando a fala. Entre!

 

2013

 


 

[1] Platão apud Jorge Luis Borges. In:"O Livro dos sonhos".

[2] Há uma personagem do romancista inglês Julian Barnes que afirma "História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas da documentação". In: "O Sentido de um Fim".