Em PEDAÇO DE UM MONÓLOGO, 2001, o personagem que desenvolve a ação é simplesmente identificado como Falante. Por indicação de Beckett, é um homem e está posicionado no palco, de pijamas, ao lado de uma luminária com a mesma altura que ele, em formato de globo. Vida e morte são temas desta obra em que um homem narra em terceira pessoa aquilo que parece ser sua própria história. Novamente, o sujeito aqui está fora dele mesmo. A narrativa é recheada de ações com qualidade cinematográfica ao recriar, por meio da palavra, imagens que somente seriam possíveis como imagens propriamente no cinema. O início e o final da peça são também marcados por uma manipulação cinematográfica do tempo: ao se formar, tanto a imagem do começo quanto do final permanecem estáveis por dez segundos, lembrando as tomadas de plano geral que se propõem a situar o espectador em relação ao espaço-tempo da ação. Em última instância, trata-se de um recurso para que aquele espaço-tempo seja apropriado também como imagem em seu potencial sinestésico, e não apenas como engate narrativo. Essa dimensão cinematográfica da obra é percebida por Adriano e Fernando que projetam ao fundo do palco um série de fotos reais do ator que fala quando criança. Constroem, também, a parede branca mencionada no texto [que poderia ser a própria tela de cinema] e que outrora tivera fotos. O recurso estético se configura também como discurso e a ativação da memória do ator convocam sua inserção na obra de maneira mais performativa, combinando elementos não-ficcionais na obra de ficção.

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