Em VIÚVA, POREM HONESTA, 1997, o coletivo dá prosseguimento ao contato com a obra de Nelson Rodrigues e à parceria com Hugo Rodas na direção. A escolha da dupla por este texto reforça seu interesse por materiais dramáticos em que a teatralidade é questionada como convenção [característica presente também nas peças anteriores] – permitindo um tratamento alegórico ao drama que Nelson Rodrigues sugere ao palco. O enredo, que aborda as relações entre a sociedade e a mídia [e os diversos jogos de interesse e conflito suscitados por ela], ressignifica-se na ideia de cenografia como jornal, formada por estruturas sobrepostas com margens bem marcadas: prédio-jornal, prédio-manchete, prédio-foto, prédio-hierarquia. A palavra da manchete é substituída pelos corpos e personagens; e a cenografia sugerida como suporte da palavra. O estatismo do prédio contrasta com a movimentação permitida dentro das caixas-manchetes [dentro-fora] e das persianas [aberto/fechado, revelar/ocultar]. O movimento em relação às caixas só é permitido em orientação vertical, reforçando a qualidade mais imponente do elemento prédio também no corpo. Adquire, assim, certa qualidade anti-natural e potencializa o tratamento alegórico dado à montagem. A contenção do movimento surge novamente como procedimento e, junto com ela, o desenho das ações e da gestualidade dos personagens.

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