Por Daniela Bousso

 

O trânsito entre linguagem visual e cênica constitui um espaço híbrido, um território de complexidades regido pela experimentação na obra de Adriano e Fernando Guimarães.

O diálogo com a obra de Samuel Beckett leva os irmãos Guimarães a criar a trilogia multimídia “Todos os que caem”, “Não ficamos muito tempo… juntos” e “Felizes para sempre”. Nesses trabalhos, eles vêm desenvolvendo uma trama de ações que enreda atores, espectadores, objetos, textos, fotografias e vídeos, por meio de instalações, teatro, e performances. Apresentam em palcos, instalações e não palcos uma série de ambientes “quase” imersivos nos quais a metáfora, a desconstrução do pensamento linear e a teatralidade estão presentes. Pode-se dizer que o lugar da arte dos Guimarães é justamente um não lugar. É um espaço entre espaços, que articula as diferentes linguagens artísticas com outros campos do conhecimento: ética, estética, política, filosofia, literatura, tecnologia.

Nos trabalhos dos Guimarães, o corpo, o grande protagonista da arte contemporânea, aparece emblemático, como forma de percepção de nós mesmos e da sociedade dos nossos dias. Em suas performances, peças e instalações, o corpo dos atores e do público está sempre envolvido em jogos de regulação e controle, nos quais as ações humanas são vistas como um ciclo de repetições inúteis, cujo resultado é a falha ou o fracasso. O absurdo da situações, a urgência do discurso e a quase tortura à qual os atores  são submetidos provocam uma atuação da plateia, que ora reage com crueldade, perplexidade ou indignação. Mais do que a fragmentação ou a supressão do corpo  no sentido beckettiano, o corpo aqui é visto como lugar primeiro onde a regulação e as relações de poder se estabelecem, sejam elas de caráter interno ou externo. A densidade poética de sua arte decorre de um constante desejo de provocar, desestabilizar ou tencionar, evidenciando com forte sentido de ironia os paradoxos e os absurdos do cotidiano.

Para o historiador da arte Nicolas de Oliveira, o corpo deve ser visto como um elemento-chave na obra desses artistas. “O corpo interpreta ou faz-se de personagem, mas simultaneamente representa a si próprio, afirma-se como recipiente do inconsciente, ou seja, o corpo interpreta aquele papel, na instalação, que dá acesso ao que é instável e efêmero. A ação imprevisível do corpo sempre oferece condição de ruptura ou desestabilização na obra pós-modernista”. Para Oliveira, os textos originais de Beckett funcionariam como “ready-made”. Os irmãos Guimarães se apropriariam e realizariam releituras de Beckett como tática.

Questões presentes no universo beckettiano adquirem outros sentidos e configurações, criando uma nova poética. Nessa reinvenção, mecanismos de controle e poder aparecem de forma determinante. Instruções de uso, regras rígidas e estritas definem ações e papéis numa cena particular. A curtíssima peça “Respiração”, escrita pelo dramaturgo em 1969, serviu como mote para os Guimarães desenvolverem a performance “Respiração +”. Nela os atores mergulhados em água devem obedecer ao som de uma autoritária campainha para emergir e submergir. As trocas de poder são determinadas por uma tensão entre um “regulador externo” – a campainha – e um “regulador interno”- a respiração do ator. O corpo, portanto, está no centro de uma trama em que o sujeito oculto -  o limite da respiração – é quem altera as ações do poder. Aparece, então, com metáfora de uma pós – utopia, pois media signos que evocam uma resistência que disrompe com uma determinada estrutura autoritária.

Em suas instalações e performances mais recentes, uma opressiva luz tem o papel de abrir e fechar a cortina imaginária de um palco qualquer. Na performance “Luz  -”, espectadores com o acender e apagar de uma luz através de plugues, manipulam implacavelmente a ação de atores, até a exaustão física dos mesmos. A regulação é determinada por um simples controle remoto, que é tão somente um objeto de simulação. Atores e público subvertem seu papéis  para construir uma cena única, revendo o funcionamento das relações de poder. O corpo do ator e o corpo da audiência são também  vistos como um corpo social e evocam um imaginário: o da figura do regulador/torturador que aqui funciona como metáfora da produção de um sentido político. As ações impostas ao corpo pelo limite da resistência física produzem a urgência da reconstrução do sentido ético. Já na videoinstalação “Dupla Exposição”, o poder da luz está associado à invisibilidade, ao desaparecimento e à finitude. Um personagem – projetado em tamanho real em uma parede – luta incansavelmente contra a incessante abertura de janelas virtuais ao seu redor. O perigo que as janelas representam é claro: a grande entrada de luz pode aniquilá-lo, fazê-lo sumir, pois ele é projeção, também feito de luz. É nesse embate que surge a inútil resistência da personagem ao seu próprio fim.

Durante um diálogo com os artista, eu me pergunto, em voz alta, se haveria, da parte deles, um certo cinismo ou mesmo ceticismo em relação ao fato de estarem ou estarmos vivos. Mais que depressa, eles me respondem com uma citação beckettiana: “se a vida e a morte não se apresentassem ambas a nós, não haveria inescrutabilidade alguma. Se houvesse apenas a escuridão, tudo estaria claro. É porque não há apenas a escuridão, mas também a luz, que nossa situação se torna inexplicável”. Em face da perspectiva material da morte – a grande reguladora do corpo -, a ironia que perpassa os trabalhos dos irmãos Guimarães coloca em xeque o desejo de perpetuação da vida por meio de ações inúteis. Ainda assim, não é o pessimismo que orienta a criação em sua obra. O que norteia a sua produção é o senso de resistência à entrega. É isso que a poética dos artista constela. Adriano e Fernando partem de um universo moderno regulado pelos textos de Beckett, utilizando-os em deslocamentos propostos pela máxima duchampiana – a apropriação e o jogo – e chegam à esfera contemporânea, desestabilizando a linguagem do teatro, prática essencialmente clássica. Extraem do teatro sua essência de espelhamento, evocando a ideia de redução por transferência e contra-transferência freudiana, no jogo interativo da troca de papéis entre personagens e plateia.

A manifestação trans ou pluridisciplinar dos irmãos Guimarães demonstra que em arte contemporânea não existem camadas puras. Há diversidade, complexidade. Sobreposição e intersecção entre linguagens são procedimentos da ordem do dia. Ao criarem uma zona de interstício como contraponto ético a tudo o que é cristalizado, tomam o corpo como objeto de metalinguagem. Com seus metacorpos, Adriano e Fernando produzem novos sentidos e criam novas possibilidades para a arte. Os artistas parecem querer reinstalar, no estatuto da arte e da vida, uma dimensão simbólica que vem se perdendo na marcha desenfreada de um sistema sociopolítico em disrupção, que parece corroer a dimensão ética que eles tentam resgatar. Ao tentar desestabilizar um certa ordem por meio da ironia, Fernando e Adriano nos falam dos absurdos do nosso tempo e da necessidade de um projeto de reconstrução e revisão de valores.

 

Texto publicado no catálogo: GUIMARÃES, Adriano; GUIMARÃES, Fernando (org.). Todos que caem. Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil, 2004.